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11 maio 2018

Aspectos da vida fraterna e missão evangelizadora



Frei Almir Guimarães - Assistente Espiritual Regional Sudeste 2 RJ/ES

Tenho diante dos olhos o documento da Ordem dos Frades Menores (2017) Ite, nunciate…, sobre as novas formas de vida missão na Ordem do Frades Menores. Transcrevemos as reflexões sobre a vida fraterna e a missão evangelizadora.

Vida fraterna

Viver o dom do irmão comporta:

  • uma relação com os outros encharcada de humildade, sem procurar ter razão com suas próprias ideias, antes de qualquer coisa, por melhores que sejam, e muito menos impô-las aos outros irmãos. O espírito fraterno pressupõe uma mútua e recíproca acolhida que não se baseia no domínio de um irmão sobre o outro. A humildade nas relações permite que haja uma descentralização de si para dar mais espaço ao Senhor e a uma melhor disposição à acolhida do irmão diferente de mim;
  • o gosto pela escuta recíproca, pela partilha de vida e pelas comunicações fraternas que favorecem o crescimento da comunidade e de cada um dos irmãos. Um desejo de construir junto com os outros, na dinâmica da busca do Reino de Deus que se chega a conhecer no cotidiano. Uma alegria que se reconhece num modo simples de viver relações justas e sadias, consigo mesmo, com os outros e também com os mais pobres. O alegre saborear a beleza do perdão, dado e recebido, através da simples e franca correção fraterna;
  • a comunhão com os irmãos da própria Fraternidade, da Província e da Ordem, e com a Igreja em geral. Uma relação sadia e equilibrada com a autoridade, seja quando esta é exercida, seja na condição de obedecer;
  • uma organização tal que permita ao frade doar sua própria vida para fora como se estivesse permanecendo na mesma fraternidade, no respeito aos tempos de oração, de silêncio, de convívio, de atividades e de encontros.

Missão evangelizadora

A missão evangelizadora, realizada sempre como Fraternidade e como íntima necessidade de ir e anunciar aos outros tudo o que Senhor nos deu comporta:

  • o desejo ardente de testemunhar aos nossos irmãos e irmãs do mundo aquilo que nos faz viver, para que possam beber na mesma fonte; uma real disponibilidade de partir em missão; um profundo desejo de anunciar o Evangelho e o apelo para vivencia-lo. É a audácia evangélica que nos impulsiona a viver esta aventura no seguimento de Cristo; uma relação viva com Cristo que se encarna na mútua e benevolente ajuda fraterna;
  • uma adequada preparação antes da missão, assim como uma proveitosa colaboração entre os diversos protagonista
  • a entrega e avaliação regular de nossas jornadas diante de Deus e sob o olhar benévolo dos próprios irmãos. A partilha do Evangelho, depois de um tempo de atividade intensa, é um meio formidável para este restituição; isto permite uma tomada de distância daquilo que é vivido e um recentrar-se em torno da Palavra de Deus, prontos para acolher aquilo que o Senhor diz;
  • a importância da benevolência nos relacionamentos recíprocos, assim como da paz e da alegria profunda que vêm de Deus e que habita o frade em missão;
  • uma gestão “equilibrada” do próprio tempo, entre a contemplação, a vida comunitária, as atividades, os estudos e as relações humanas, de modo que o frade nunca seja “engolido” pelas atividades a ponto de não estar mais disponível para ninguém, como também para que não caia no excesso oposto, na perda de tempo e no ócio.
Ite, nuntiate…, 45-46.

Fonte: franciscanos.org

25 abril 2018

Grandes períodos da vida de Francisco de Assis



Frei Almir Guimarães


Temos o costume de consultar textos que fazem a cronologia da vida de São Francisco. Muitos livros sobre o Poverello apresentam fatos e acontecimentos ano após ano, desde o nascimento até a morte. Cesare Vaiani, OFM (Storia e teologia dell’esperienza spirituale di Francesco d’Assisi, Edizioni Biblioteca Francescana, Milano) em obra erudita faz a mesma cronologia, mas regrupada em grandes períodos. No fundo ajunta fatos e feitos em nítidos “capítulos” da história do Poverello, fases de sua vida. Apresentamos o trabalho em duas vezes.

1. Juventude ( 1181-1205) – Francisco cresce no meio da juventude de Assis. Estes são os anos da formação de seu caráter: pessoa alegre, brilhante, gosta de participar de festas com seus amigos. Exerce uma profissão: trabalha com o pai Pietro Bernardone, na loja de tecidos. Tendo viajado à França, aprende a língua francesa. Nos momentos de alegria servir-se-á deste idioma para exprimir sua alegria. Aprende a ler e escrever o latim. Participa do ambiente político e militar vivido por Assis. Toma parte numa batalha, é feito prisioneiro e, por fim, cai enfermo. Este período pode ser considerado como uma unidade. Dele possuímos informações genéricas. Nesse tempo, o jovem Francisco ainda não havia encontrado sua identidade.

2. A conversão (1205-1208) – Nesse período de sua “conversão”, Francisco muda de vida e se torna penitente. Os episódios deste período são, de modo particular, aqueles ele mesmo menciona em seu Testamento: o encontro com o leproso, a oração nas igrejas e o encontro com o Crucifixo de São Damião. Tudo indica que neste período Francisco está sozinho em sua busca.

3. A primeira fraternidade (1208-1216) – A Francisco se unem irmãos de diferentes estratos sociais. O crescimento interior de Francisco se fez em função da experiência positiva e criativa da fraternidade. O período é constituído pelos “anos mágicos” das origens da experiência fraterna. Francisco e seus primeiros companheiros nunca se esquecerão desse tempo. O período em questão pode ser caracterizado pela chegada dos irmãos que dão nascimento e vida à Fraternitas. Os irmãos que foram chegando constituíam, no dizer de Francisco, um dom do Senhor, presente inesperado. Trata-se de um elemento fundamental para que possa elaborar o projeto de vida. Este vai sendo delineado aos poucos. Os momentos importantes do surgimento da Fraternitas são os capítulos, reuniões de todos os irmãos que tinham lugar uma vez ao ano. Neste período não sai da cabeça de Francisco o ideal do martírio. No final dos anos aqui mencionados começam a surgir os primeiros problemas com o vertiginoso crescimento do grupo.

4. Expansão da Fraternitas e primeiras dificuldades (1217-1219) – A Fraternitas já se apresenta numerosa. Foi se transformando com a chegada dos irmãos “letrados” nos anos 1215/1216. Por ocasião do Capítulo de 1217, a Fraternitas passa a ter uma nova organização com a instituição dos “ministros provinciais” e com a estruturação em “províncias”. Começa a expansão além dos Alpes com uma primeira expedição mal constituída ou formada e a presença ultramarina melhor sucedida. Francisco encontra-se com Cardeal Hugolino que começa a intervir na Fraternitas, que aos poucos vai constituir-se em Religio/Ordo. Nesse período, registra-se a primeira intervenção oficial do Papa (Bula Cum dilecti, 11 de junho de 1218) que pode significar o surgimento de alguns problemas na Fraternitas/Religio. Se não houvesse problemas, tal Bula não teria sido escrita. Este período distingue-se do precedente pelo surgimento dos primeiros sinais de organização, pela expansão numérica e qualitativa e pelas primeiras intervenções da autoridade romana.

5. Oriente (verão de 1219-verão de 1220) – Francisco está no Egito, no acampamento dos cruzados. Depois do Capítulo de 26 de maio de 1219, no final do qual se decidiu o envio de irmãos para além dos Alpes, Francisco, por sua vez, parte para o Oriente. Entre as razões para esta viagem pode-se supor a permanência do desejo do martírio, a vontade de pôr em prática determinações do Capítulo que queria enviar os frades em missão, fora da Itália. Poder-se-ia se questionar também se não se tratava de uma fuga dos crescentes problemas assinalados no período anterior. A permanência no Oriente, ocasião em que Francisco contrai uma dolorosa enfermidade das vistas, parece ter sido uma experiência de grande importância em seu percurso e se apresenta como divisor de águas em seu caminho. Aproxima-se ele de um mundo distinto da christianitas onde sempre vivera, mundo fortemente religioso no contexto islâmico. Trata-se de uma experiência de caráter internacional, de modo especial no acampamento dos cruzados onde haviam pessoas de diferentes nacionalidades.

6. Retorno e pedido de demissão (setembro 1220) – Tendo sido chamado por alguns frades, ele mesmo muito preocupado com os problemas da Ordem, Francisco volta à Itália no verão de 1220. Obtém do Papa a determinação de que o Cardeal Hugolino venha a ser o protetor da Ordem e no Capítulo de São Miguel (29 de setembro de 1220) apresenta sua demissão.

Não estamos diante de um período, mas de um fato preciso e datado. A razão se explica pela mudança ou transformação que se verifica no relacionamento de Francisco com a fraternidade. Não se pode esquecer o peso “institucional”. Juridicamente, Francisco continua sendo referência para a Cúria Romana, como se verifica pelo fato de que ele elabora a Regra e busca sua aprovação. A demissão é vivida pessoalmente por ele como afastamento do governo da Ordem. Mostram-no suas inequívocas afirmações em Escritos datados desta época.

7. Anos de provação e de apostolado (1220-1224) – Aparecem dois elementos aparentemente contraditórios: de um lado uma atividade evangelizadora intensa, documentada em suas cartas circulares e, de outro lado um certo isolamento da Ordem como consequência de sua demissão. Fala-se de uma “crise” de Francisco. Algumas fontes assinalam-na como gravíssima tentação do espírito, que teria durado dois anos e o afastado dos irmãos. Embora aparentemente contraditórios os dois elementos caminhavam paralelamente. Repetimos: Francisco, depois de 1221 dedica-se ao trabalho de reelaboração da Regra que desembocará na Regra bulada de 1223, contando com a assistência do Cardeal Hugolino e provavelmente de alguns frades. Nesse labor, Francisco é contrariado pelo grupo dirigente da Ordem. Manifestam-se sintomas do avanço de enfermidades (fígado e estômago, além da doença das vistas). No período em questão emerge um Francisco que sofre no corpo e na alma. No final desse período situa-se o episódio de Greccio, a celebração do Natal (1223).

8. Os estigmas (setembro de 1224, no alto do Monte Alverne) – Aqui não se trata de um período, mas de fato singular. No âmbito de toda a trajetória de Francisco a estigmatização deixa marca profunda. Segundo Cesare Vaiani não se pode deixar de colocar o fato nessa “periodização” da vida de Francisco. O estigmas não constituem o centro da vida e da experiência de Francisco para o qual convergiria, como parecem crer alguns de seus biógrafos. O episódio coloca-se na esteira de todo um labor espiritual do Poverello e, quem sabe, se poderia dizer que os estigmas seriam uma resposta de Deus ao que Francisco estava vivendo. Depois do Alverne ele conhecerá a paz da cruz.

9. Os dois últimos anos (1224-1226) – Francisco vive cercado de alguns poucos companheiros que dele cuidam, protegem e, de certo modo, isolam-no da Ordem. Durante a estadia de cinquenta dias em São Damião, na primavera de 1225, dita o Cântico do Irmão Sol. Tem vontade de se ocupar novamente dos leprosos, como no começo, realiza um giro de pregações. O Testamento prova que mesmo demissionário não deixou de cuidar dos irmãos. No atual período, Francisco está muito doente e um pouco isolado.

10. A morte (3 de outubro de 1226) – Nas primeiras vésperas do domingo 4 de outubro, Francisco morre na Porciúncula, deitado na terra nua.

Fonte: franciscanos.org.br

23 abril 2018

Franciscanos seculares: o que queremos de verdade?



1. Queremos ser gente, gente para valer, cultivando o corpo, a mente, o coração e desejando fazer de nossa vida um cântico de alegria. Somos pessoas felizes porque existimos. Gostamos de nós mesmos de verdade, sem idolatria self. Gostamos de viver e de conviver.

2. Gostamos da vida: família, trabalho, lazeres, natureza, belezas, avanços da técnica. Não somos pessoas macambuzias. Gostamos de viver, apesar de todas as dificuldades. Gostamos do casamento, do ser homem, do ser mulher, das refeições com amigos, de leituras cativantes, de noites de luar e de dias de chuva generosa quando a terra está seca.

3. Queremos ser cristãos. Não somos apenas pessoas de ritos e rezas. Queremos ser discípulos do Ressuscitado. Nascemos no seio de uma família católica. Somos membros da Igreja Católica. Isto, no entanto, não basta. Almejamos ser discípulos do Senhor. Nossa fé não é mera herança que guardamos no banco. Fazemos questão de ler e refletir sobre o Sermão da Montanha que marca nosso estilo de vida. Gostamos quando Papa Francisco pede que tenhamos encontros pessoais com Cristo. Queremos, antes de terminar nossos dias, viver uma Igreja segundo o jeito do Papa Francisco. Temos receio de muito jeito de ser cristão suscitado pelos programas religiosos de televisão.

4. Por diferentes razões e circunstâncias tornamo-nos membros da Ordem Franciscana Secular. Muitos de nós ingressamos nas suas fileiras talvez não sabendo todo o alcance de seu programa de vida. Queremos nos impregnar do espírito da Regra: desejamos seguir o Mestre Jesus vivo e ressuscitado à maneira de Francisco. Esse seguimento tem algumas marcas: empenho de mudança do coração (conversão), vontade de viver com outros (fraternidade), mas viver de verdade, não apenas estar ao lado de… Nossa postura é a de sermos menores, alegres menores, gente simples, sem complicações de vaidade, ciúmes… Frequentando as páginas franciscanas sentimos que somos cristãos à maneira desse gigante/pobre e belo chamado Francisco de Assis.

5. Muitas vezes temos saudade do silêncio, do deserto, do eremitério. Não nos sentimos bem no meio das arruaças. Temos saudade daquele que nos inventou. Por isso, gostamos de ler e saborear a contemplação e a Regra de Francisco para os eremitérios.

6. Pecamos. Somos pecadores. Mas levantamos a cabeça e pedimos o perdão do Senhor. Gostamos de dizer com Francisco: miserável verme vosso ínfimo servo. Mas arde dentro de nós tornar Cristo Jesus amado. Francisco nos pede que o Amor seja amado.

7. Gostamos de trabalhar em nossas paróquias. Não somos tocadores de obras, nem tropa de choque. Não somos empregados de uma firma, mas amantes do Amado. Trabalhamos em todos os campos que nos pedem, de preferência cuidando dos mais abandonados. Não queremos ser pessoas mecânicas na ação pastoral que colocamos. Somos antes de tudo enviados por aquele que nos olha e nos cerca de todo carinho.

8. Queremos viver nossa vida conjugal e familiar com o espírito evangélico-franciscano: um casal unido, simples, amigo, despojado; alegria e confiança em nossa casa; filhos educados sem preocupação com dinheiro, sucesso, culto doentio do corpo; queremos que nossos filhos encontrem Cristo Jesus de modo especial em sua juventude. Não queremos ser uma família fechada, mas um foco de bem querer que ilumine os outros casados e as outras famílias.

Frei Almir Guimarães
Assistente Espiritual Regional Sudeste 2 RJ/ES

Fonte: franciscanos.org

18 abril 2018

O acontecimento espiritual chamado Capítulo



Reflexões em torno do tema do capítulo

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM - Assistente Espiritual Regional Sudeste 2 RJ/ES

Os ideais são como estrelas: nunca os alcançaremos, mas eles podem nos orientar ( Karl Schurtz).

Um capítulo é sempre uma celebração pascal. Deve ser vivido num contexto essencial de Páscoa, no sentido de que a Páscoa comporta cruz e esperança, morte e ressurreição. Um capítulo não é uma simples reunião de estudo, um encontro superficial ou uma transitória revisão de vida. É portador de uma grande novidade pascal – uma criação nova do Espírito – uma firme empenhada esperança (Cardeal Pirônio).

1. Nós, franciscanos, como outras famílias espirituais no seio da Igreja, estamos acostumados a participar de encontros fraternos e “jurídicos” denominados de “capítulos”. Não poucas vezes aguardamos com espírito alegre e certa ansiedade sua chegada. Penso nos capítulos em geral, embora mais precisamente enfoque aqui os capítulos da I e III Ordens. Tenho em mente tanto os capítulos avaliativos e, de modo especial, os eletivos.

2. Capítulo vem da palavra latina “caput” que quer dizer cabeça. Em outras palavras, reunião principal, cérebro da “organização”, reunião dos pareceres de muitos em vista de se realizar, da melhor maneira possível, aquilo que o Espírito pede para todos. Os irmãos (e irmãs) são convocados para um tempo de avaliação da caminhada ou para a escolha daqueles que deverão prestar um alegre serviço à fraternidade composta de discípulos de Jesus e irmãos de São Francisco. No que concerne ao capítulo eletivo não se trata apenas de uma mudança de quadros ou de uma “troca de cadeiras”, mas de uma retomada do fôlego de um grupo que, por muitas razões, pode se mostrar ofegante. Sangue novo, novas esperanças, tentativa de deixar o marasmo, abanar brasas para que sejam reavivadas. Os que são escolhidos são investidos da missão de tornar presente na Igreja e no mundo o carisma franciscano, ou seja, viver em plenitude o mandato conferido pelo Senhor a Francisco e a seus irmãos. Que fique bem claro: trata-se de um acontecimento espiritual. Decisões e nomes para exercer os serviços precisam ser referendados pelo Espírito.

3. Qual o espírito dos capítulos no tempo de São Francisco? Assim escreve Éloi Leclerc: “Uma ou duas vezes por ano, todos os frades se reúnem em capítulo. Esses encontros desempenham papel importantíssimo na vida da fraternidade. Não são somente um tempo forte durante o qual os irmãos na alegria do reencontro se reabastecem na oração e no louvor, mas também ocasião de tomada de consciência comum: todos e cada um se sentem solidários e responsáveis pela vida do grupo e por sua missão no mundo” (E. Leclerc, Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, p.60). Trata-se de uma cuidadosa e séria revisão da caminhada feita e da elaboração de um programa para o futuro.

4. Precisamos, efetivamente, deixar-nos impregnar do Vento que pode nos questionar e da Chama que pode nos aquecer e iluminar. Os capítulos, em todos os níveis, não se improvisam. Quaisquer que sejam precisam de uma inspiração, de um sopro, de uma prospectiva. Serão perpassados por uma paixão. Onde, com efeito, encontrar esse Sopro?

5. A Ordem Franciscana em todos os seus ramos conheceu um vigor novo no pós-concílio do Vaticano II: retorno ao carisma primitivo e aggiornamento, nova Regra para a OFS, novas Constituições. Conhecemos os bons resultados e, ao mesmo tempo, ínhamos esperado que tudo teria podido ir mais adiante. Conhecemos as transformações operadas em todos os setores da vida humana sobretudo da década de 90 em diante. Como pano de fundo de nossa vida e de nossos capítulos estão estes dois elementos: retorno ao carisma fundante e leitura dos sinais dos tempos. No momento atual, o jeito de viver e de encarar a missão da Igreja do Papa Francisco estará presente nas preparações e realizações de nossos capítulos. O Papa Francisco nos ajuda a descobrir o novo.

6. Através de documentos e textos preparatórios os participantes de um capítulo chegam a colocar no papel partes de um “sonho” a ser realizado. Esse sonho, e somente ele, pode animar a assembleia capitular. Não se trata apenas de uma ou duas palestras bem ou mal assimiladas. Por vezes, a etapa da reflexão é encurtada pela pressa em fazer tudo rapidamente para se poder chegar aos finalmente das eleições. O clima da sala capitular começa a ser feito nas fraternidades.

7. Os relatórios não podem parecer estatísticas e frias constatações. Os que preparam o capítulo e, de modo especial, aquele ou aquela que o preside provocam uma séria revisão: fraternidade, vida de intimidade com Deus e de louvor ao Altíssimo, presença no mundo, ação apostólica, inserção na Igreja local, sentido dos votos. O tema escolhido para um capítulo deveria ser bem elaborado e, durante uns meses, estudado por todos os irmãos. Os que participam de um capítulo deverão “dominar” o tema, terem refletido com certa profundidade e estarem em condições de sugerir pistas. Isso não pode limitar-se a um círculo de reflexão feito depois uma palestra proferida na aula capitular. O tema, já estudado nas fraternidades, será retomado na aula capitular, será rezado na liturgia, fará parte das conversas à mesa e nos corredores. No fundo se trata de descobrir jeito de sermos mais santos, santos diante de Deus, amigos e devotados servidores dos irmãos. O que está em jogo é nossa identidade e nosso destino como família religiosa viçosa. O certo seria que, depois de um capítulo, o documento capitular fosse, de fato, a alma da fraternidade durante um bom tempo.

8. Há sempre o risco que em nossos capítulos fiquemos numa monótona audição de falas, votações, liturgias mais ou menos grandiosas. Insistimos: o Sopro deve a tudo perpassar. Pode acontecer que alguns dos membros da Fraternidade tenham perdido a esperança na transformação do grupo devido a diversos fatores: envelhecimento, rarefação das vocações, dificuldades econômicas e encontrar pessoas capazes de gerir os bens, irmãos que pediram afastamento ou um tempo fora da fraternidade, crises pessoais, atrativo por outras maneiras de se viver o seguimento e diferentes maneiras de agir pastoral e missionariamente. Pode acontecer que em certas circunstâncias o capítulo se torne enfadonho. Os participantes inventam razões para sair antes da hora. Esse fazer por fazer não enche de viço o coração dos capitulares.

9. Insistimos: vivemos um tempo especial da vida da Igreja. Penso na influência do estilo de animação da vida da Igreja implementado pelo Papa Francisco. Fez-se ele um pastor muito próximo de nós. Fala muito de uma Igreja em saída, de uma comunidade misericordiosa que busca e resgata os que estão jogados à beira do caminho. Pede que voltemos ao Evangelho. A radicalidade do Evangelho não é somente pedida aos religiosos, mas a todos os discípulos. Parece que a mentalidade do Papa manifesta em seus documentos e a volta ao espírito do Evangelho são como que o ar que respiraremos em nossos capítulos. Os capítulos precisam despertar em nós a capacidade de sonhar.

10. Sonhar ou estar aberto à utopia. Os que ingressam na sala capitular deveriam ter em mente estas reflexões: “Estar aberto à utopia significa esperar uma sociedade melhor: mais veraz, justa, solidária e trabalhar por ela. A utopia é precisamente a meta que alguém deseja conseguir. A utopia é necessária para dar sentido e sabor à vida, sem ela o combate cotidiano se torna quase insuportável. Para fazer possível a utopia necessário ver o Invisível. Somente aqueles que são capazes de ver o invisível pode a utopia realidade” (Joan Bestard, Diez valores éticos, PPC Madrid, p. 191). Utopia? Pessoas utópicas ou pessoas com senso crítico misturado com esperança?

11. Necessário entrarmos no capítulo sustentados pela esperança. O mesmo autor acima mencionado fala de utopias básicas que podem dar sentido e vigor à nossa existência: utopia da realização pessoal e da comunicação sincera e afetiva com as pessoas; utopia da construção de uma sociedade mais justa, humana e fraterna; utopia de uma natureza não poluída e bela; utopia de uma cultura que fomente o valor da vida e da dignidade de pessoa humana; utopia da tolerância e da paz. Utopia? Busca das estrelas? “Muito importante na vida ter ideais, estrelas que possamos olhar. Sem ideais a vida se torna anódina, monótona e sem gosto. Sem sonhos a existência nos conduz por senda vulgar e triste.

12. Como as pessoas entram e vivem nas terras do capítulo? As mais das vezes vive-se a alegria do reencontro. Quantas novidades temos a dizer uns aos outros! Outros, talvez, venham ruminando certo pessimismo devido a suas experiências pessoais não tão felizes. Vive-se o tempo do capítulo com atenção e um espírito de otimismo. As coisas não mudam porque houve “pacote” de decisões. Precisamos acreditar na engrenagem do capítulo que é obra do Espírito Santo. Não podemos esquecer que a vida é portadora de novidades de surpresas. Uns e outros chegamos ao capítulo com “nossas” ideias. A troca de ideias, a convivência, os momentos de profunda oração podem levar os capitulares a um consenso: pessoas maduras em estado de conversão, abertas ao Espírito.

13. Tudo indica que os capítulos devam ser precedidos por uns dias de retiro (ao menos um dia inteiro). Já dissemos: trata-se de um evento espiritual. Nesses dias será preciso responder a uma pergunta simples e complexa: Nós, franciscanos, de onde viemos e para onde queremos ir? Ou para onde o Espírito quer nos levar? Não se faz capítulo sem pedido de perdão e sem momentos densos e suficientes de oração. Não se ingressa num capítulo como se entra numa convenção dos empregados no setor da panificação. Os capitulares são convidados e convocados a criar espaços de comunhão. Dois elementos ajudam a criar comunhão: fé na presença de Jesus deixando-se modelar por sua palavra e uma paixão pelo ser humano. Oração ao Senhor presente e paixão pelo ser humano. Quanto mais estivermos centrados em nos mesmos, sentimentos de cansaço experimentares. Cuidado para não se ficar escravos de certas dinâmicas do capítulo.

14. Como se sai de um capítulo? Necessário querer fazer a verdade, realizar o que foi decidido, fazer com que as conclusões se tornem vida. As conclusões de um capítulo não constituem uma peça literária, mas roteiro de vida para os irmãos e irmãs. A experiência nos diz que, para podermos evitar surpresas pouco agradáveis para o futuro é fundamental dar importância aos capítulos avaliativos. Os capítulo eletivos, por sua vez, precisam mostrar mais claramente estarem sendo realizados na força do Espírito.

15. Os capítulos eletivos constituem uma realidade mais delicada. Antes do capitulo, sem intenções “politiqueiras”, será fundamental que se faça uma reflexão sobre as possibilidades de uns e de outros, sobre os talentos para o serviço de uns e de outros. As prévias funcionam como elemento orientador. Um clima de recolhimento pode ajudar a assembleia a melhor captar a ação do Espírito. No processo eletivo os irmãos haverão de se colocar numa postura pascal, morrer para viver. O capítulo é um acontecimento espiritual.

16. Luciano Baronio afirma: “Necessário se faz dar corpo à esperança e voltar abrir o coração à utopia porque sempre é melhor morrer de utopia do que de aborrecimento”. E Joan Bestard: “Hoje nosso mundo, em geral, carece de utopias. Tem-se a impressão de que foram eliminadas por um pragmatismo frio e calculista que nada busca senão o juntar sempre mais e o bem estar individual a qualquer preço. O pragmatismo mercantilista leva ao tédio e o tédio, por vezes pode desembocar no mais absurdo suicídio”( op.cit. p 192).

Fonte: www.franciscanos.org

28 março 2018

Francisco de Assis, um homem reconciliado


A palavra reconciliação é de grandíssima atualidade. As “diferenças” não são aceitas e as pessoas se encastelam no ódio, cavando cisternas e cortando pontes. Mundo caótico, mundo de ódios e de violência, mundo “desembestado” sem respeito nem cortesia. Os homens perderam a formula de serem humanos. Nada mais importante do que um empenho de reconciliação. Frei Antonin Allis, OFMCap, publicou na revista “Evangile Aujourd’hui”, n. 211, p. 29-35, um texto que levou o título de “François d’Assise, un homme reconcilie”. Nosso site da Imaculada se inspira fortemente nessa reflexão do frade capuchinho.


A reconciliação abrange um conjunto de relações do ser humano consigo mesmo, com os outros, com Deus e com o mundo criado. O contrário de “reconciliado” parece ser uma pessoa “explodida”. A não reconciliação é alguma coisa da ordem da violência ou da paixão. As pessoas se dopam, se drogam para “corrigir” as explosões.

Contrário a “reconciliado”, “reconciliação” é uma ser rasgado, dilacerado. Cada um de nós faz a experiência de dilaceramentos interiores entre amor e desprezo por si mesmo. Ser reconciliado é amar-se a si mesmo sem se considerar o centro do mundo, nem se desprezar. É ter com os outros um justo relacionamento nem de superioridade, nem de inferioridade; um ser reconciliado é ter para com a natureza uma relacionamento de respeito de louvor e não uma postura de dominação, nem de açambarcamento ou apropriação; um ser reconciliado é aquele que tem com o Senhor um verdadeiro relacionamento de amor e de confiança, não de medo, nem de rejeição.

A reconciliação é um caminho, um longo aminho. Supõe, em primeiro lugar, que reconheçamos nossos dilaceramentos e nossas lutas internas. É ver com clareza que precisamos aceder à unidade, empregar o melhor de nós mesmos, mudar nosso olhar, aceitar outros pontos de vista. Em termos cristãos a isso designamos de conversão. É um procedimento que nasce da fé e da confiança. Converter-se é aceitar não permanecer centrado sobre si mesmo, aceitar abrir-se a Deus e, ao mesmo tempo, aos outros e ao mundo criado. Converter-se é retomar o caminho primeiro desfeito pelo pecado. É ter novamente Deus por eixo. Temos a tendência de fabricar falsas imagens de nós mesmos, dos outros e de Deus. Converter-se é deixar-se purificar por Deus, reconhecer que ele está na origem de tudo, é o centro de tudo, que tudo vem dele, tudo a ele se refere. Converter-se é reconhecer que somos plenamente nós mesmos na medida em que correspondemos àquilo para que fomos criados. No termo da conversão nosso ser e nossos relacionamentos se transformam. Chegamos a um estado de harmonia. Harmonia conosco, com os outros e com o Senhor.

É preciso, no entanto, prestar atenção. Harmonia não é apenas um estado de equilíbrio propiciado por certas técnicas relaxantes. Não é também uma sensação de beatitude quase que física. Não ignorar os problemas e as dificuldades, mas encará-los de uma outra maneira. Estar em harmonia é tender à simplicidade, suprimir balangandãs e floreados, tudo o que é muito complicado e elaborado A harmonia é um acordo fundamental que faz com que sintamos e outros também sintam que aquilo que fazemos é o que precisa ser feito, o justo, nada demais nem de menos. Harmonia tem a ver com a maneira de falar: “As coisas estão sem seus devidos luares”. Tal não acontece da noite para o dia. O tempo do combate é longo, com seus altos e baixos. A harmonia não é dada de uma vez. Pede empenho, trabalho. Estaremos sempre a caminho. O importante é estar em tensão para… sem desânimo.

Francisco é um homem reconciliado porque foi fazendo ao longo do tempo de sua vida, enquanto é humanamente possível, esse trabalho de unificação. Soube aceder a uma grande simplicidade despojando-se de seu orgulho, narcisismo, vangloria e preocupações inúteis. A simplificação e a reconciliação interior de Francisco aparecem claramente sem suas Admoestações. Deve-se dizer que ele não se tornou uma pessoa reconciliada a ferro e fogo nem da noite para o dia, nem com condão mágico de uma fada. Conseguiu-o ao longo do tempo entregando-se a Deus, aos irmãos e aos acontecimentos. Foi somente no fim da vida com os estigmas, com o “Cântico do Sol” e com e sua morte nu sobre a terra nua que se tornou o homem pacificado. Sua morte nu sobre a terra nua não seria o símbolo mais forte de ser um homem reconciliado?


Francisco e o leproso – Testamento

Francisco, logo nas primeiras linhas de seu Testamento, faz menção ao encontro com os leprosos como momento essencial de sua conversão. “Até então, diz ele, a vista dos leprosos me enchia de amargura, mas o Senhor me conduziu até eles de sorte que o amargo se me tornou doce e o doce, amargo”. Francisco já tinha visto leprosos, mas até então eles nada mais haviam inspirado a não ser desgosto. O encontro com o Cristo de São Damião havia lhe aberto os olhos e o coração. Os leprosos se tornaram irmãos com os quais ele se comprazia em viver. Estamos diante de uma página de reconciliação.
 
Francisco e o perdão dos pecados – Legenda Maior 3,6

Por meio de uma visão, Francisco tem absoluta certeza de que foi perdoado de todos os seus pecados. É ao mesmo tempo uma verdadeira reconciliação com Deus e consigo mesmo. Esta reconciliação lhe proporciona paz interior e o liberta de todo sentimento de culpa pouco sadio. Ele continua tendo a consciência de que é pecador. Ao mesmo tempo, porém, confia no amor de Deus e em seu perdão. Esta certeza de ser alguém perdoado lhe dá forças e estímulo para ir adiante. Não é o pecado que precisa ser levado em consideração em primeiro plano, mas o amor de Deus, o amor do Pai que acolhe o filho pródigo, o amor do Filho que se entrega na cruz para nossa salvação.
Francisco e a natureza

Este aspecto da vida e da trajetória de Francisco vem sendo colocado em grande evidência nos últimos anos. Não é necessário dissertar sobre ele. Francisco tem laços afetivos, sinceros e reconciliados com a natureza. Tomás de Celano, na Vita Prima 80 e 81 faz um detalhado relato do Francisco reconciliado com a natureza.

  • Pelos textos dos biógrafos ficamos sabendo que, para Francisco, Deus, e através dele Jesus Cristo está continuamente presente no mundo e que merece ser incessantemente louvado. Francisco, cheio do amor de Deus, glorificava, louvava e bendizia continuamente por todos os elementos e todas as criaturas, o Criador e Mestre de todas as coisas, Deus está no coração da O capítulo 23 da primeira Regra e o “Cântico do Irmão Sol” falam dessa harmonia. Tudo deve nos incitar a um permanente louvor. Não se trata de panteísmo, de dizer que a natureza e Deus constituem uma só realidade. Deus e a fonte do universo. É dele que todo o universo, os astros, os elementos as plantas têm sua origem. Não temos outra coisa que fazer senão louvá-lo. Sem Deus o universo não existiria e nem nós mesmos.

  • Texto denso e belo de Frei Antonin Alis nos fala desta união de Deus com o ser criado em Cristo Jesus: “O nascimento de Jesus numa manjedoura é começo de era nova, de um muno novo. Por meio de Jesus, Deus reuniu de novo o céu e a terra. É o que anunciam os anjos aos pastores e que cantamos no Glória. Através de Jesus abre-se uma nova era de justiça, de paz, de felicidade, era em que os valores ganham outro sentido, em que os papéis são invertidos como Maria exprime no seu Cântico: “Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou. De bens saciou os famintos e despediu sem nada os ricos”. Com a encarnação de Jesus, o mundo dos valores muda. Bem-aventurados os pobres, os mansos, os que experimentam sede de justiça, os construtores da paz. O nascimento desse menininho numa manjedoura é penhor de uma humanidade recriada. Deus “assume” a terra e destrói os antigos esquemas e velhos ritos. Como bem mostra o Evangelho das Bodas de Caná, os jarros de purificação estão vazios e o vinho azedo, a Antiga Aliança terminou, vem a Aliança nova, as núpcias do Cordeiro. Eis um vinho novo que dá vida. Com a encarnação de Jesus, o mundo muda e Francisco entrou para valer nesse mundo” (op.cit., p. 33).

  • “Para Francisco, as criaturas todas estão ligadas por uma fraternidade fundamental definitiva: elas constituem uma família em que cada um está a serviço de todos os outros e particularmente do último nascido, ou seja, do homem. Francisco não imagina fronteiras entre o mundo inanimado e os vivos, entre pedras, animais e homens. Não se tem por estrangeiro no universo. Constitui um de seus elementos. Francisco mostra-se feliz em fazer parte desse universo e louva a fonte de tal riqueza, Deus.

Certamente não podemos nos deter na figura doce demais de Francisco representada em imagens com pássaros e outros animais. Francisco é mais do que alguém que gosta de bichos. Autores alertam para o perigo de devoção sentimental. Preciso, no entanto, ser prudente, Antonin Alis, no entanto, faz questão de registrar sua posição. Houve tempo em que ele também se comprazia em criticar o Francisco dos passarinhos. “Hoje sinto-me atraído por este santo que falava com os pássaros, o lobo, as cigarras, andorinhas, prestava atenção nas abelhas e vermes, sempre cantando as maravilhas da criação. As pessoas tida como sérias não falam com os pássaros nem com outros animais. Na verdade falam apenas com pessoas com as quais estão relacionadas. Francisco, por sua vez, fala aos pássaros, às flores e a todos aqueles e aquelas que encontra. Em Francisco há uma conivência com o conjunto da criação que faz com que se sinta em comunhão sentindo-se irmão de todos e de toda a criação”.

A morte de Francisco, nu sobre a terra nua – Legenda Maior 14

Antes de morrer, Francisco pediu a seus irmãos que o colocassem nu sobre a terra nua. Não se duvida que tenha sido para imitar o Cristo. Podemos também ler nesse gesto um sinal de que Francisco se reconciliou ao mesmo tempo consigo mesmo, isto é, com seu corpo de modo particular, mas também com a terra, com os outros e certamente com Deus.

Conhecemos o modo como Francisco tratava seu corpo. Não foi terno para com o “irmão asno”. Levou vida de penitência e de ascese. Sua vida é um prolongado jejum e suas noites foram mais consagradas à oração do que ao sono. O fato de pedir que seu corpo fosse colocado nu na terra nua pode ser interpretado como um último gesto de penitência e de ascese. Antonin Alis acredita que fato representa algo mais: “Creio pessoalmente que se possa ver aí um gesto de reconciliação com seu corpo. Refiramos ao livro do Gênesis: a nudez de Adão e Eva antes do pecado. Francisco não tem mais vergonha deste corpo tantas vezes por ele pouco apreciado. Mostra-se nu não por exibicionismo, mas para mostrar que o homem é belo em sua nudez. Por causa da vergonha é que Adão e Eva cobriram seus corpos com folhas. No momento de sua morte Francisco junta-se a Adão e Eva em sua inocência original” (op. cit. p. 34).
Para concluir

Francisco deita-se na terra nua. Terra, irmã, mãe que nos sustenta e nos alimenta. Francisco volta novamente para o relato do Gênesis… O homem tirado da terra. Somos seres terrestres, assim queridos por Deus. Deitado nu na terra nua, Francisco assume suas origens e está plenamente reconciliado com elas.

FREI ALMIR GUIMARÃES

Fonte: www.franciscanos.org

27 março 2018

Ordem Franciscana Secular - Laicato Maduro Numa Igreja em Saída




Frei Almir Ribeiro Guimarães - Assistente Regional

Pórtico

Fortalecido pelo profetismo do Papa Francisco, o cristão discípulo missionário enfrentará como profeta, as realidades que contradizem o Reino de Deus e insistirá em dizer: "Não a uma economia de exclusão". "Não à cultura do descartável". "Não a uma globalização da indiferença". "Não ao fetichismo do dinheiro". "Não à especulação financeira". "Não ao dinheiro que domina ao invés de servir". "Não à desigualdade social que gera violência". "Não à fuga dos compromissos". "Não ao pessimismo estéril". "Não ao mundanismo espiritual". "Não a guerra entre nós". Por outro lado, o mesmo discípulo missionário gritará: "Não deixemos que nos roubem o entusiasmo missionário". "Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização". "Não deixemos que nos roubem a esperança". "Não deixemos que nos roubem a comunidade". "Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno". Eis o que significa ser missionário no mundo globalizado, consumista e secularizado (Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade. Sal da terra e luz do mundo (Mt 5, 13-14). Documentos CNBB 105 n. 177).

  • Não poderia ser esse texto o programa de vida dos cristãos missionários? Os franciscanos seculares muito têm a refletir sobre tais exigências alegres e libertadoras. O Papa Francisco parece alguém que está perto de nós, em nossa casa, em nossos sonhos, em nosso desejo de viver em plenitude.
  • Aí estão tantas Fraternidades Franciscanas Seculares. Algumas centenárias ou quase. Não muito compostas ainda de irmãos que viveram anos a fio sem o espírito novo e sopro vital da Regra dita de Paulo VI (1978), mas que alcançaram eminente santidade de tanto conviverem com o espírito de Francisco de Assis.
  • Sim, há irmãos e irmãs que chegaram uma grande santidade de vida. Hoje, no inverno da vida, mais parecem a plantas com botões primaveris. Estão cheios de viço e de vigor. São as pessoas que honram a Ordem dos leigos franciscanos.
  • Homens, mulheres, casados, solteiros, viúvos. Irmãos conscientes de sua vocação matrimonial e feitos para o trabalho. Uns e outros vivendo uma experiência de vida, no mundo, no século. Leigos cristãos. Buscadores de Deus. Sérios buscadores do Mistério. Pessoas que andam preparando caminhos para a chegada da Presença. Franciscanos Seculares, pessoas que foram visitadas por um convite, como visitado fora Francisco de Pietro di Bernadone pelo Evangelho lido na Porciúncula, evangelho de missão, da alegria de ir pelo mundo. Leigos atuantes. Unidos à Igreja.
  • Ingressam numa Fraternidade com as cores franciscanas. Essa Fraternidade se visibiliza por regulares encontros, reuniões suculentas. Na Fraternidade aprendem a lição da hospitalidade do outro, da acolhida da diferença. E os outros dizem: "Vede como eles se estimam!" Renovam a face da terra pelo seu testemunho.
  • Vivem em fraternidades em estado de crescimento. Nada de fixismo e imobilismo. Tudo em ritmo de crescimento. Os irmãos e irmãs irradiam a festa da fraternidade. O melhor ainda não aconteceu. Está para vir. Com seu modo de viver antecipam o banquete que os aguarda.
  • Leigos, não clérigos, não religiosos de votos. Leigos batizados. Morreram a si mesmos no batismo. Foram incorporados em Cristo vivo e ressuscitado. Renascidos pelo Batismo que renovam na Vigília Pascal de todos os anos e pela profissão que emitem na Ordem Franciscana Secular. Leigos lúcidos. Cobertos do amor do Senhor querem espargir o que de graça receberam.
  • Pelo Batismo os leigos se tornam sacerdotes da criação, votados à paternidade e à maternidade, profetas que anunciam um mundo novo no meio das realidades terrestres, reis que não se curvam diante dos ídolos. Pessoas livres, seres libertos de si mesmos.
  • O campo prioritário da ação dos leigos é o mundo. Colaboram nas atividades diocesanas e paroquiais. Antes de tudo, no entanto, agem na transformação da realidade para que esta tenha já agora os traços do Reino. E antes de tudo mesmo ingressam num caminho de conversão.
  • São muitos os campos de ação: casamento, organização política, direitos humanos, profissão: médicos, advogados, lavradores, enfermeiros, merendeiras, administradores. Há leigos cristãos que são deputados, vereadores e senadores. Eles humanizam o mundo.
  • De modo especial os franciscanos seculares se ocupam do que estão caídos à beira da estrada, todos esses cujo semblante tem traços do leproso que São Francisco abraçou. As fraternidades seculares e seus membros acolhem, sempre acolhem, têm o vício do acolhimento.
  • Laicato que amadurece no estudo, na leitura, na participação de retiros. Leigos que costumam visitar o seu interior. Leigos em profundidade.
  • Praticam o método do ver, julgar e agir.
  • Leigos que amadurecem quando acolhem com serenidade os desafios da vida, na superação das crises conjugais, no tempo do desemprego, na perseguição, no tempo da velhice e da doença, na fase das tentações.
  • Leigos e leigas atuantes, discípulos missionários de Cristo, homens e mulheres de ação, mas sempre com saudades do eremitério. Vivem uma densa intimidade com o Senhor.

Epílogo

Graças ao entusiasmo e ousadia missionária o cristão leigo colocará em prática o pedido do Papa Francisco: "Nenhuma família sem tento, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade (...). Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem tento, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu sua filha porque foi submetido à escravidão; quando recordamos estes "rostos e nomes" estremecem nossas entranhas diante de tanto sofrimento e comove-nos...". Isto tudo nos comove e faz chorar e nos impele à missão" (Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade. Sal da Terra e Luz do Mundo. Documentos da CNBB 105, n. 181).

16 fevereiro 2018

O que as fraternidades esperam de seus Ministros?

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  • Pensamos em ministro ou ministra. Na realidade a questão deveria ser formulada de outra maneira: O que se espera do ministro e de seu conselho? O ministro anima e governa com seu conselho. Certo que a figura do ministro tem como que alguma coisa de especial. É sempre o primeiro a ser escolhido do dia das eleições. As fraternidades de verdade aos poucos vão preparando alguns de seus membros para serem ministros. É um serviço que não se improvisa. Necessário que se faça a melhor escolha possível usando a graça do discernimento. O ministro ama os irmãos e a anima a vida da fraternidade.
  • A primeira preocupação do ministro é a de promover a fraternidade, não permitindo que nada se sobreponha ao amor fraterno, que prática alguma venha a ferir a caridade. Soa aos nossos ouvidos as palavras de São Francisco: “E onde quer que os irmãos estiverem e se encontrarem, tratem-se uns aos outros como membros de uma só família. Pois se uma mãe nutre a ama seu filho carnal, com quanto mais motivação deve cada um amar e nutrir seu irmão espiritual”.
  • Espera-se do ministro que não seja mero funcionário de uma organização, mas pessoa revestida de solicitude e atenção. Ele terá traços de mãe e de pastor. Os irmãos serão tratados com respeito, reverência e compreensão. No caso de ser necessária uma conversão esta será feita com humildade e mansidão. Francisco tinha tempo para os irmãos. Os ministros colocam os irmãos como prioridade.
  • O ministro seja vigilante, o que não quer dizer “espião”. Vigilância significa atenção, dar-se tempo de acompanhar a trajetória dos irmãos. O ministro vigilante é aquele que não deixa a ovelha se desgarrar, que previne antes de remediar, que encontram meios e modos que seus irmãos tenham gosto e paixão pelo Senhor.
  • Ele se faz presente pessoalmente na vida dos irmãos. Isto se dá nos dias de reunião, em encontros da fraternidade, fazendo-se presente de quando em vez nos encontros de formação dos iniciantes. Quando há encontros regionais o ministro se fará incentivador da participação de todos. O ministro une sua fraternidade local ao movimento franciscano e a toda a família franciscana.
  • O ministro não se apega a cargo, não luta para conseguir dois terços da votação no primeiro escrutínio quando já ocupou o cargo por dois períodos seguidos. “Se a privação do cargo de superior perturbar mais do que a privação do cargo de lavar os pés, os que assim agirem estariam amontoando para si tanto mais riquezas com perigo para suas almas” (Adm 4).
  • O ministro sempre há de se interessar pela vida familiar dos irmãos. Na realidade, os membros de uma fraternidade são esposo, esposa, filhos, pais, avós. Tudo o que estiver ligado à família do irmão é preocupação e alegria para o ministro.
  • O ministro haverá de promover a vida apostólica dos membros de sua fraternidade. Os franciscanos seculares são agentes qualificados da ação pastoral. Estes serão sempre pessoas preparadas para anunciar o Evangelho pela palavra e pela vida com competência. Não se pode conceber uma fraternidade indiferente à pastoral e evangelização. Ou então agentes de pastoral mais com jeito de funcionários de uma firma.
  • O ministro tem sempre cuidados especiais pelos mais fracos e doentes, seja do corpo ou do espírito. Os que erram precisam ter a certeza de encontrar misericórdia no coração do ministro. “Não haja irmão no mundo, mesmo que tenha pecado a mais não poder não saia de tua presença sem obter misericórdia diante de teus olhos: ama-o mais do que a mim tendo em vista conquista-lo para o Senhor” (Carta de Francisco a um Ministro).
  • O ministro (sempre com o seu conselho) prestará atenção a determinados ângulos e aspectos da vida franciscana secular:
  1. Boa e mesmo excelente qualidade da reunião geral;
  2. Atenção aos que faltam, procurando saber se não estão se desmotivando;
  3. Fazer com que todos, na medida de seus talentos e possibilidades participem da vida da fraternidade e se sintam úteis;
  4. Ninguém pode deixar uma reunião da fraternidade dizendo que perderam seu tempo;
  5. Cuidar que os irmãos não percam a identidade franciscana.

Frei Almir Ribeiro Guimarães
Assistente Espiritual Regional Sudeste 2 RJ/MG

Fonte: http://www.ofs.org.br/ofs-grandes-temas/item/1423-o-que-as-fraternidades-esperam-de-seus-ministros

14 fevereiro 2018

Quaresma – Tudo começa de novo



Quarta-feira de cinzas
14 de fevereiro de 2018
Joel 2, 12-18; 2Coríntios 5,10-6,2; Mateus 6, 1-6.16-18

O deserto é o lugar onde ficamos totalmente desprotegidos. Lá estamos sozinhos frente a frente com nós mesmos, com nosso vazio interior, nosso desamparo, nossa solidão, com o imenso nada ao redor e dentro do coração.
Grün-Reepen

• Não faz muito tempo despedíamo-nos do tempo do Natal. Em começos de janeiro guardamos as imagens do presépio, desmontamos a árvore de natal com suas bolas multicoloridas e aquelas luzinhas chinesas que piscam, piscam sempre. Lá no sótão, ou naquela prateleira da área de serviço, descansam Maria e José, o Menino e pastores e também os magos, os carneiros dos pastores, a manjedoura do menino. E agora tiramos outra caixa, a caixa da quaresma. Talvez não. Talvez simplesmente nesta 4ª-feira das cinzas chegam até nós palavras que perdemos um pouco a prática de pronunciiar: esmola, jejum e oração. Elas estão na caixa de papelão da memória. Na verdade tiramos não de caixas de papelão, mas do baú de nossa própria vida.

• A Palavra do Senhor vem nos acordar. Primeiro cinzas em nossas frontes e essa proposta da esmola, do jejum e da oração. Mas afinal de contas nós, cristãos do século XXI, não corremos o risco de parecer antiquados, repetindo essas histórias de comer menos, de ficar pensando nos outros que precisam de dinheiro e de “perder” tempo com a oração? Essas práticas que tiramos do baú têm sentido? Temos pressa. Temos que aproveitar a vida… Essa proposta quaresmal parece nos impedir de seguir os tempos…

• Mas atenção! Não podemos perder e desperdiçar o tempo da quaresma. Entramos no templo. Mudaram-se os paramentos do verde para o roxo, deixou-se o Glória nas alturas. Antífonas, leituras, hinos e cânticos nos falam da mudança do coração, de um tempo favorável. Tudo começa com essas cinzas na fronte. Sacramental, símbolo. Somos fragilidade. Nada de nariz arrebitado. Importante ceder o lugar para o outro. Somos fragilidade, pó, poeira, cinza. Não dá para entrar correndo no templo para receber as cinzas se nosso coração não der tempo ao tempo para o recolhimento e para tomarmos consciência do quanto somos odiosos com nossas posturas cheias, bem cheias, de egoísmo e de autossuficiência. Nada de praticar a justiça diante do homens, para que vejam e digam que somos os tais… os melhores… nada de ritualismo vazio. As aparências enganam. Desnudar o coração…

• Lutamos, trabalhamos, vivemos dignamente. Precisamos pensar em nós… Para o cristão, no entanto, não tem cabimento pensar apenas em si. Quaresma é tempo de partilha, de aprendizado do dom de si, de desejo dar ao outro aquilo que existe dentro de nós: um louco desejo de amor. Vestir os nus, colocar leite na mamadeira das crianças, fazer uma campanha para esses desempregados. Esmola? Sim e não. Solidariedade. Fazer-se dom. Se dermos o nome de esmola a este gesto do dom dos bens e de nós mesmos, discretamente, sem que a mão direita saiba o que faz a esquerda, teremos vivido uma gigantesca quaresma. Os outros, os outros, sempre os outros. Cristo costuma marcar encontro conosco nos outros. Preciso pensar nisso.

• Essa gente toda que somos nós, adolescentes e jovens, adultos e pessoas maduras nesse tempo da quaresma precisamos reencontrar o gosto pela intimidade com o Senhor na oração. Fazer silêncio, escutar os gritos do coração, ler a Escritura com os olhos do interior. Nada de oração alarido, gritaria. Palavras sim, mas palavras que brotem de nosso nó interior. Oração dos salmos, oração da Eucaristia, sempre uma oração que parta de nossa verdade mais íntima. Oração feita no quarto, com porta fechada. A quantas anda nossa intimidade com o Senhor?

• Quaresma tempo de jejum. De privação de alimentos, certamente. Uma dieta espiritual sóbria nesse mundo de consumismo. Quaresma tempo de protesto contra essa sociedade de consumo, de cerveja o tempo todo, de requintes, de todas as gorduras que nos fazem seres obesos, lentos, cansados, pesados. Jejum de nós mesmos.

• Sim, vamos entrar no tempo da quaresma, no deserto da quaresma… Mateus nos ajuda com sua insistência na transparência: esmola, oração e jejum, mas feitos a partir de nossa verdade e sem alarido, tudo discretamente.

• Quaresma, tempo de conversão: “Converter-se não é em primeiro lugar passar do vício para a virtude, mas viver uma mudança radical: aceitar de não fazer sua vida sozinho, como numa queda de braço, mas acolher em Jesus a iniciativa de Deus, a gratuidade de seu Amor, de seu chamamento e de seus dons. No começo de tudo, não há mais o eu, o homem, mas o Amor de Deus” (Michel Hubaut).

• “No deserto topamos com nossos limites, descobrimos que não podemos nos autoajudar, que precisamos da ajuda de Deus. No deserto nos expomos sem proteção, temos sede de tanta coisa e fome do que nos falta” (Grün-Reepen).

Frei Almir Guimarães
Assistente Espiritual Regional Sudeste 2 RJ/ES

Fonte: www.franciscanos.org.br

26 setembro 2017

Paulo Machado da Costa e Silva

Os franciscanos seculares conhecem bem o “irmão” Paulo. Os petropolitanos, por sua vez, ao se referirem a ele o designam de “professor Paulo Machado”. Está página é uma manifestação de carinho a um dos mais franciscanos entre os franciscanos. Isto é para começo de conversa.



No dia 17 de maio de 2017 Paulo Machado da Costa e Silva, comemorou festivamente seu centenário de vida numa bela celebração na Igreja do Sagrado Coração de Jesus e na Casa da Ordem Franciscana Secular, em Petrópolis. Familiares, amigos da cidade, muitos irmãos e muitas irmãs da Ordem Franciscana encheram o templo da rua Montecaseros. Um digno cidadão, uma pessoa de Deus, um filho carinhoso de Maria e um irmão franciscano, assim é Paulo Machado. Houve discursos, cantos, aplausos, expressões de gratidão, emoção. O mês de maio em Petrópolis ficou mais bonito e a rua Montecaseros não cabia em si de tanta alegria. Faltaram bandeirinhas e uma banda de música!

Paulo não vive mais em seu apartamento no Edifício Cinda, na rua do Imperador, perto do Colégio Santa Isabel. Há algum tempo ele precisou recolher-se a um Lar de Idosos no Distrito de Itaipava, na Casa dos Irmãos de São João de Deus. Numa tarde de setembro recebi o convite de um terceiro franciscano para visitar o Irmão Paulo já com 100 anos e quatro meses.

Ele passou a viver num quarto asseado e claro com as coisas necessárias para uma vida digna. Lá chegando encontrei Paulo com as vistas marcadas pelos anos, os pés inchados, muito bem vestido com um terno cinza e uma camisa social sem graveta. Dizendo-se cansado, ouvindo com aparelho, respondendo com voz forte, lembrando-se de tudo. Aceitei o convite para a visita também porque queria ainda uma vez administrar-lhe o sacramento da unção dos enfermos. Antes falamos sobre as catástrofes políticas brasileiras, os processos, as condenações, a função do Procurador Geral da República, da Polícia Federal, do Ministério Público. Sobre cada um desses itens ele deu um sucinto e preciso resumo. Evocamos passagens da história: o tempo do governo Eurico Gaspar Dutra, da influência que exercia a primeira dama Carmela Dutra, o tempo de Brasília, do governo Juscelino, da construção da capital no Planalto. Lembramos que nosso Hotel Quitandinha no idos de 1940 recebia a fina flor das artes de Hollywood. Uma conversa amistosa…

Ali estava um pai de família extremado, professor de português e de história, vereador, advogado, assessor da Câmara Municipal, sobretudo um homem reto, um ser humano límpido e transparente, um cristão, um devoto profundo de Maria e honra da Família Franciscana de modo especial dos franciscanos seculares. Exerceu cargos na OFS em muitos escalões. Foi colaborador na redação da preciosa Regra dos terceiros aprovada por Paulo VI em junho de 1978. Um homem que concretizava o ideal do cristão leigo franciscano vivendo no mundo e sempre com o coração a dizer que ele precisava ser contemplativo. Um contemplativo na ação. Nos últimos anos andou se despojando de tudo e passou a viver apenas com o estrito necessário.

Sobre uma cadeira do quarto havia um exemplar do jornal “O Globo” com notícias a respeito de Palocci, Janot e a Lava-Jato. Um homem que se interessa, aos 100 anos, pela vida e pelo que acontece no mundo. Um homem que recebia com gratidão e alegria, uma vez mais o sacramento da unção dos enfermos. Um leigo cristão…

Depois de uma visita de perto de uma hora deixamos o quarto do “professor”. Ficou em Itaipava aquele gigante com o corpo alquebrado, as pernas inchadas, a dificuldade de ouvir e de enxergar, vestido com um terno, uma camisa sem gravata e respirando uma imensa dignidade através do irmão corpo.

Foi uma visita que fizemos ao irmão Paulo Machado da Costa e Silva, honra da Família Franciscana e da Ordem Secular inventada por Francisco de Assis.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Assistente Espiritual Regional Sudeste 2 RJ/ES

Fonte: Franciscanos.org

21 agosto 2017

Frei Almir escreve sobre “O perfil da fraternidade OFS




1. Os franciscanos seculares constituem um ramo da Família franciscana. Esta é formada por todos os que têm em comum a missão de tornar presente no mundo a graça, o carisma próprio de São Francisco. No seio desta única Família, a vocação franciscana é vivida por modalidades diferentes e complementares. Entre as concretizações de Fraternidades está a vida franciscana vivida por leigos no mundo.

2. A palavra-chave é Fraternidade. Ora, a Fraternidade é uma comunidade reunida por Francisco por causa de Jesus Cristo e do Evangelho. Reúne na amizade cristãos de diferentes ambientes e meios sociais, de todas as idades e condições de vida. É constituída por membros pertencentes a fraternidades locais.

3. A Fraternidade, na verdade, é um ambiente espiritual onde cada um cresce na vivência do Evangelho e se abre à fraternidade universal. Seus membros, designados de irmãos, se entreajudam a viver o Evangelho à maneira de São Francisco na Igreja e no mundo. Nesse propósito, eles se colocam à disposição uns dos outros tendo como base a Regra.

4. Bem consciente da vocação leiga de seus membros, a Fraternidade ajuda a cada um a assumir sempre mais plenamente suas responsabilidades pessoais, familiares e sociais inerentes ao seu estado secular e a realizar sua missão cristã no mundo.

5. A Fraternidade brota do amor de Cristo. De forma alguma pode ela se dobrar sobre si mesma. Necessariamente é uma comunidade aberta para a Igreja e o mundo. A Fraternidade é solidária a todo o gênero humano e sua história. Seus membros têm como ponto de honra acompanhar a presença no Senhor no mundo. Normalmente, são pessoas habilitadas a ler os sinais dos tempos.

6. A Fraternidade quer ser para cada um de seus membros e para todos os homens um sinal modesto, mas verdadeiro de vida evangélica e de fraternidade universal.

7. Em razão da condição leiga de seus membros, a Fraternidade é uma comunidade ordinariamente dispersa. Por isso, os momentos de reunião são de grande importância. Quando a Fraternidade se reúne em nome de Cristo, a Fraternidade vive um tempo forte. Ali ela manifesta seus traços fundamentais. As reuniões realizadas ao longo do tempo da vida fortalecem a vocação. É essencial, pois que os irmãos participem ativa e regularmente dos encontros de sua Fraternidade. As reuniões haverão de ser muito bem preparadas para que produzam fruto e não cansaço e irritação.

8. A reunião não constitui um fim por si mesma. Sua finalidade é alimentar uma vida que precisa se manifestar ao longo do tempo. É ao longo da existência cotidiana que cada um traduz a realidade espiritual que consiste em ser membro da Fraternidade.

9. A Fraternidade é uma comunidade de irmãos, uma comunidade de escuta da Palavra de Deus, comunidade de oração, comunidade de partilha fraterna. Não se pode esquecer que a Fraternidade constitui uma plataforma onde se forjam missionários do Evangelho.

FREI ALMIR GUIMARÃES
Assistente Regional da OFS

Fonte: franciscanos.org

OFS: uma comunidade de irmãos



1. É Cristo Jesus que que reúne em fraternidades homens e mulheres e faz que eles se tornem efetivamente irmãos. Chamados a viver como irmãos os membros de uma fraternidade vão tecendo relacionamentos fraternos uns com os outros e amando-se na qualidade do amor de Cristo Jesus.

2. Como pano de fundo dessa comunidade de irmãos está a experiência das primeiras comunidades cristãs: “Eles frequentavam com perseverança a doutrina dos apóstolos, as reuniões em comum, o partir do pão e as orações. De todos apoderou-se o medo à vista dos prodígios e sinais que os apóstolos faziam. E todos os que tinham fé viviam unidos, tendo todos os bens em comum. Vendiam as propriedades e os bens e dividiam o dinheiro com todos, segundo as necessidades de cada um. Todos os dias se reuniam unânimes, no Templo. Partiam o pão nas casas e comiam com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo. Cada dia o Senhor lhes ajuntava outros a caminho da salvação” (Atos 2,42-47).

3. O amor fraterno se manifesta e se exprime de muitas maneiras:

• por uma atitude de acolhimento de cada um;
• por uma atenção calorosa e bondosa para com todos os membros da fraternidade, sem deter-se em simpatias pessoais, aprendendo a ouvir a todos;
• procurando fazer com que cada um encontre seu lugar na fraternidade nela, integrando-se mais e mais;
• ajudando mais especialmente aqueles membros que têm dificuldades ou vivem enfermidades, luto e carências notáveis;
• eventualmente os irmãos se ajudam material e financeiramente;
• as pessoas doentes e os idosos haverão de merecer especial atenção;
• criando um clima de confiança de tal maneira que cada um possa sentir-se à vontade para exprimir desejos e necessidades;
• com um esforço de querer, concretamente, partilhar a vida e as preocupações do outro;
• estabelecendo um diálogo verdadeiro;
• os membros da Fraternidade não hesitam em abordar os assuntos mais variados, para poderem viver em plenitude e não serem pessoas cansativamente rotineiras;
• em fraternidade, os irmãos exercem uma fidelidade criativa;
•por meio do diálogo, os irmãos sentem com a possibilidade de conviver com o diferente

4. Através do diálogo fraterno, os membros da Fraternidade dão passos avantajados rumo a uma comunhão cada vez mais estreita. Dão ao mundo o testemunho de que se amam e se estimam. Vivendo o fraternismo em suas Fraternidades, os irmãos e irmãs sentem capacitados a criar laços fraternos com todos os homens e mesmo com todo o mundo criado.
Texto para reflexão

“Onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro sua necessidade, porque, se a mãe nutre a ama seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual? E se algum deles cair enfermo, os outros irmãos devem servi-lo como gostariam de ser servidos” (Regra Bulada, cap. VI).

Fonte: Franciscanos.org

08 agosto 2009

Pais Franciscanos Seculares

Domingo 09 de agosto é Dia dos Pais. Frei Almir Guimarães, OFM, Assistente Espiritual Nacional da OFS do Brasil, em artigo especial sobre essa data, lembrou dos pais franciscanos seculares:

"Pensamos aqui nos pais que apreciam Francisco de Assis, que são membros da Ordem Franciscana Secular, que, franciscanamente, exercem seu ministério da paternidade: vivem dignamente sem ostentação; usam das coisas com modéstia; recusam-se a serem escravos da sociedade de consumo; gostam de freqüentar as igrejas e dizer ao Senhor Jesus que o adoram; pais que criam laços de perdão entre todos, em particular, entre seus familiares; pais que despertam nos filhos o encantamento diante da flor, do ar, da água, de nossos irmãos todos".

Leia o artigo "Esses homens chamados pais" na íntegra, clicando aqui.